Porque resolveu começar a escrever o livro?

Quando comecei a escrever eu não tinha intenção de fazer um livro, eu apenas queria colocar no papel o que eu havia vivenciado e não falava para as pessoas. Assim como muitas mulheres que convivem com a rotina de violência doméstica, eu não tinha consciência de que minha vida era marcada por abusos. Rascunhei em um caderno e mostrei para algumas amigas, elas me perguntaram se eu estava escrevendo um livro, foi aí que eu percebi que poderia ajudar muitas outras mulheres a não passarem pelo que eu passei.

 

Como foi o processo de criação?

A partir do momento em que eu decidi que seria um livro, comecei a estudar como iria fazer. Aos poucos fui organizando como seria, o que eu queria falar, quais seriam os personagens e os capítulos. Não foi um processo fácil, no início foi bom me lembrar da infância, dos amigos que marcaram minha vida. Depois, quando eu realmente entrei na história dos abusos, foi dolorido demais. A cada frase escrita era como se eu estivesse passando por tudo aquilo novamente, chorei muito. Em um dos momentos mais fortes eu parei de escrever, só consegui voltar depois de quase dois meses. 

 

“Vida e Verdade”, o que esperar do livro?

“Vida e Verdade” retrata a história da jovem Paula, que me representa no livro. Uma mulher sonhadora que conhece um homem, se apaixona e se casa imaginando construir uma família e "ser feliz para sempre". Mas já na lua de mel, ela entende que nem tudo seria fácil, nessa noite vem a primeira decepção; Paula é violentada pelo marido. Ela se percebe em apuros, mas ele perde perdão e faz promessas, o casal então decide seguir em frente. A partir daí muitas situações de violência doméstica são retratadas. 

 

Que tipo de abusos Paula sofre?

Vários tipos de abuso, como, violência física, emocional e ameaças. Ele tinha momentos de príncipe, era uma pessoa encantadora, mas em outros, se mostrava um agressor. Paula então descobre que ele é usuário de cocaína e aí ela começa a associar que durante os momentos de terror, ele provavelmente estaria sob efeito da droga. Ele era obcecado por ela, tinha um ciúme doentio e se mostrava bastante inseguro. 

 

Como você vê a violência doméstica hoje em dia?

No processo do livro eu comecei a prestar mais atenção nas pessoas e pude perceber que a violência contra as mulheres existe e está ao lado da gente. Tenho recebido muitas mensagens de mulheres que me contam os abusos que já sofreram ou que ainda sofrem diariamente. Elas relatam que se identificam com vários momentos do livro, muitas delas me ligam chorando para contar. No ano passado eu fiz uma palestra para algumas jovens do ensino médio em uma escola, e quando terminei, muitas delas relataram situações de abusos que presenciavam de seus pais ou padrastos, ou até mesmo de seus namorados, o que foi um susto para mim. 

 

Qual o seu objetivo ao publicar este livro?

Eu espero que um grande número de pessoas possa ler o livro para saber que isso acontece mais do que a gente imagina, e com pessoas que estão ao nosso lado.  Quero debater sobre o tema, pois esse problema relacionado a violência doméstica é de toda a sociedade. Vejo que ainda temos muito o que trabalhar na prevenção contra os diversos tipos abusos.